quinta-feira, 16 de setembro de 2010

RÉUS E LÁGRIMAS


Aimoré morreu.
Tuberculose, aos 30 anos. O que era antes doença mal-de-século, hoje ataca aqueles trancados nas celas lotadas e insalubres. Não o conheci. Conheço apenas o que os papéis falavam sobre ele. É muito contraditório ficar triste por alguém cuja condenação se pediu? Meu réu, por três vezes. Eu preferia mais uma denúncia ao invés dessa certidão de óbito que me obrigo a ler. Achei que sempre voltaria, sempre com um novo furto, por mais que tivesse esperança de que não fosse preciso mais furtar.

Derramei uma lágrima por ti, Aimoré. No banheiro, para ninguém aqui no Ministério Público ver que eu choro por um condenado.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

POESIA RUIM - QUARTO

E a minha aula de processo civil virou algo próximo de literato.



EXECUÇÃO DE AMORES INCERTOS

Adjudico os bens
ou aceito tua proposta
ousada (indecente)
de dação em pagamento?
Meu envolvimento é impenhorável.
Todavia,
já o levaste em arresto liminar.
Conclamo minha impugnação
e tu acenas
o que eu mesmo sentenciei.
Estou insolvente,
só como depositária ainda sou fiel.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

POESIA RUIM - TERCEIRO

O TEMPO SOBRE NOSSAS FACES

A urgência do meu beijo
já te informa
desses amores de bomba-relógio.
Entre todas, escolhemo-nos
e a vida, numa rápida passagem,
uniu duas trilhas
em uma única senda.
Todavia,
o que fazer se
eu quero conhecer as montanhas
e tu deseja permanecer na planície?
Só me contento
com os grandes abismos,
os lagos em altas latitudes
e as florestas impenetráveis.
Tu caminha pelos campos
e se limita aos regatos.
Então, beijo-te
com a insistência de uma paixão que se vai,
enquanto somos só nós duas
e o mundo não tem importância.
A ilha de mágica a dois
é bruma
presente, porém intocável.
A paixão é venda de minhas inquietações.
Teu beijo, ambrosia
de uma vida mais eterna.
A utopia de uma felicidade
que se afasta e aproxima-se
como um pêndulo
de um tempo que escorre
sobre nossas faces.

sábado, 10 de julho de 2010

POESIA RUIM - SEGUNDO

TEUS

Aos teus beijos,
superação do cotidiano,
dou todos os meus segredos
nessa necessidade do escondido
tabu
e proibido.
E quando dá aquela vontade
é o grito calado
que transformo em suspiro
e conforto
nos teus braços.

POESIA RUIM - PRIMEIRO

A POESIA

A poesia
como uma fuga
do inferno juridicionalizante:
a doutrina que criou o próprio mundo
e transformou o mundo que a tinha criado.
Só que, às vezes,
como um suspiro,
escapa a realidade do seu carrasco.
E o riso não-legalizado
interrompe
a fala dos eminentes doutores.
O vento que consome a toga em pó
também cheira à liberdade.


Não é só delírio na madrugada, mas acredito que também carrega um pouco de arte. E esses poemas, escritos a algum tempo, em rascunhos e folhas soltas, levam a marca de cada particular segundo da existência. Então, por fim, tomei essa coragem de publicá-los, em meio a miscelânea do qual esse blog é tomado. 

Fiquem à vontade.

domingo, 20 de junho de 2010

UMA OUTRA QUADRILHA

Parodiando (e engayzando) Drummond...


Uma Outra Quadrilha
João amava Renato que amava Raimundo
que amava Michele que amava Joaquim que amava Thiago
que vivia no armário.
João foi para a Holanda, Renato para o manicômio,
Raimundo foi morto por skinheads, Michele ficou para travesti,
Joaquim suicidou-se e Thiago se juntou a J. Pinto Fernandes
esperando um dia poder casar.



Esse é dos meus momentos de quase-poetisa. E pra quem quer conhecer ou reler o original do poema subvertido, clique aqui.

P.S.: Tenho mais algumas poesias um pouco mais próprias. Publicá-las-ei, algum dia que perder a auto-vergonha.